Testemunho 6 Edições anteriores

por António Pérez Babo
31
Jul

Testemunho 6 Edições anteriores

Ao fim de seis Edições do Cidade Mais, poderá dizer-se que a alameda do Palácio de Cristal no Porto mudou de paradigma. De uma feira popular anual iniciada nos anos 50 do século passado, transformou-se num fórum de intervenção pela sustentabilidade do sistema urbano e, por que não, do próprio planeta, temas que serão cruciais no futuro próximo. Em 2020, sessenta e cinco anos depois da inauguração da Feira Popular do Porto no mês de junho, a alameda do Palácio de Cristal não pode recebe o Festival Cidade + porque a humanidade está cativa de um vírus pandémico, por agora incontrolável sem medidas de exceção associadas ao comportamento de cada indivíduo. É interessante verificar como em meio século se passa de uma feira de distração relativamente às dificuldades da vida, para um encontro de promoção de uma vida mais saudável.

Paradoxalmente, o motivo da interrupção evidencia só por si a necessidade do reforço de uma atuação com as características do projeto Cidade + . Há por isso motivos para apoiar com mais energia o rumo que a organização tem para esta plataforma de educação.

Em julho de 2016 participei numa sessão do Festival Cidade + ligada ao tema da mobilidade de pessoas e bens em meio urbano. A questão da mobilidade urbana sustentável – como responder à vontade e necessidade das pessoas se movimentarem mais, mas com diminuição dos inúmeros impactes negativos associados -, está intimamente ligada à cultura do ‘cidadão multimodal’ (Amar, 2004).

Não basta planear o sistema de transportes, não basta gerir a procura, é também necessário aumentar a educação para uma cidadania da multimodalidade. O crescimento de soluções em termos de meios de transporte e em termos de serviços partilhados, assim o exigem e determinam.

Por isso, o papel de uma organização como a Cidade + é essencial à promoção da cultura do ‘cidadão multimodal’. Para a sessão de 2016 que tive a honra de moderar, foram escolhidos quatro subtemas, na altura considerados de maior oportunidade.

O subtema “+ bicicleta(s) na(s) cidade(s)” colocava a questão de saber se a criação de infraestrutura dedicada à bicicleta é decisiva para o incremento deste meio de transporte na cidade ou, pelo contrário, se é mais importante a massificação do seu uso, condicionando dessa forma o comportamento automóvel e forçando uma repartição modal mais equilibrada. E como se cruzam essas opções com as questões da segurança entre automóveis, ciclistas e peões?

O subtema “que evolução para as redes urbanas de autocarros” colocava a questão da perda de passageiros na rede de autocarros e de como inverter essa tendência. O que nos remete para as seguintes questões: (1) da flexibilização e da partilha de serviços tendo por base a conetividade digital; (2) da evolução da rede de autocarros para mais densidade de cobertura intraurbana e sem sobreposição às necessidades das ligações suburbanas, a par com a definição de percursos mais diretos e rápidos; (3) de como pode a intermodalidade contribuir para o equilíbrio da repartição modal e para a multimodalidade, sem afastar utilizadores em virtude da existência de correspondências (interfaces) entre modos e meios de transportes. Na atualidade, uma 4ª questão seria incontornável: como adaptar o papel do autocarro às limitações impostas por uma pandemia ou, dito de forma mais abrangente, qual o futuro do transporte coletivo.

O subtema da “motorização elétrica e mobilidade” colocava a questão de saber se há ou não o risco efetivo de se entender a motorização elétrica como uma componente essencial da política de mobilidade, quando esse tema respeita sobretudo à questão ambiental e energética. Do que decorrerá um enorme risco de poderem vir a existir cidades de congestionamento automóvel ‘limpo’ (resolvido o argumento ambiental), mas de baixa mobilidade de pessoas e bens.

Por último, o subtema do “turismo e mobilidade intraurbana” que coloca a questão de saber como devem reagir as entidades públicas perante o crescimento da oferta de transporte (mais ou menos coletivo) e dedicado ao turismo intraurbano – sight seeing tours, ‘tuk-tuk’ tours, comboios com rodas, aluguer de bicicletas, bicicleta com motorista, trotinetes, segway, etc.? E como compatibilizar o seu ritmo com o ritmo da cidade no que respeita às restantes atividades?

Envolver os cidadãos na reflexão sobre as práticas e as medidas mais indicadas em função das especificidades de cada cidade e em função da necessidade de reequilibrar o sistema no sentido de mais multimodalidade, não será tarefa fácil. Saber ler, apreender e utilizar diferentes soluções de transportes conforme cada conveniência, carece de educação e hábito. Usar sempre a mesma ferramenta (o carro próprio) para todo o tipo de necessidades é um comportamento altamente insustentável e muito difícil de corrigir – são novas competências que é necessário adquirir e praticar.

Por isso, a mobilidade sustentável vai depender de milhares de decisões individuais e só poderá ser conseguida se existir convergência entre um planeamento de transportes menos vocacionado para o incremento contínuo da oferta, uma gestão da mobilidade assente na divulgação, informação e educação, e opções individuais assertivas por parte de cidadãos, o que implica cada vez mais ‘cultura multimodal’.

Força CIDADE +.

Porto, 31 de julho de 2020
António Pérez Babo